Os patos; …; o post maior.
Este post estava aqui como rascunho há uma série de anos (8,6,5 penso eu…). Não pode. Pimba! Carrego no publish assim à maluco. Hoje sou tão diferente…
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Dou por mim, uma grande parte das vezes, a querer alhear-me do mundo; rebentar a tiros de caçadeira nas paredes e imaginar que tudo desaparece num limbo de acre e pó, mas de forma suave e cremosa. Táctil. Uma sensação que só se obtém ao esfregar espuma de capuccino entre o polegar e indicador, mas sem um único toque entre eles. Tirando a aparente badalhoquice, é uma boa experiência.
Há algum tempo, fiz um trabalho para uma dita designer de moda. Tinha que redesenhar os gatafunhos rascunhos da senhora no computador. Habitualmente, tenho por hábito descontrair num café que existe aqui perto, no parque da cidade. Coisa que chamam a meia dúzia de centenas de metros quadrados com um lago e uma série de cisnes negros de bico vermelho. Chamo-lhes patos. A eles, às gaivotas, pombas e qualquer outro tipo de ser voador que paire naquele sítio justamente dotado pela natureza e pelo Sr. de Macacão Verde que cuida daquilo. É um lugar ímpar, com pouca verdade. Um oásis, para exagerar. O trabalho envolvia a vectorização daqueles coisos num programa adequado para o efeito. Uso o Illustrator, mas o Freehand é mais rápido. Dexei de usar o Corel há uma série de anos. E agora está-me mesmo a dar para o Inkscape e para o Xara. E para o Gimp.
Já tinha dito que fui uma espécie de designer gráfico um dia? Pois não fui bem isso. Fui também, de forma mais ou menos convencional, uma série de coisas. Algumas envolvem palavrões.
É um trabalho fácil, mas moroso para quem conhece os meandros da coisa. Um simples tracing não resolve o problema, só quando o desenho é bom. E temos que fazer, muitas vezes, todo o trabalho de desenho, não excluindo reanalisarmos as medidas, simetria e detalhe de forma ridiculamente aborrecida. São horas imerecidas. Desenhar rendas. Rendas! E rendilhar. Nestes trabalhos, não misturo imagens e vectores. Fica um mau trabalho misturar as duas coisas. Pôr rendinhas tiradas de um scan e misturar com linhas lisas e vectoriais é paradoxal. Ou ridículo.
Lá no parque há um hotspot wifi. Ainda assim, acho que 5 por mês é caro. É uma maravilha levarmos o trabalho connosco e dar-mos avanço às coisas a ouvir Tony Carreira, Ágata e Emanuel. Eu uso headphones e ouço outro lixo. Bom lixo, no entanto. Este trabalho surgiu numa quinta-feira ao final da tarde, por intermédio de um amigo, para tentar desenrascar a preocupada senhora que teria de apresentar em Paris — soube mais tarde que afinal era Lisboa — 34 desenhos, de 4 colecções, na segunda-feira seguinte. O parque é recente. Tem um relvado invejável, mas que raio de ideia a de plantar carvalhos, pá. Aquilo demora uma eternidade a crescer. Não há sombra no parque. É um parque aberto ao sol e desconfortável para ler nos bancos do que se intermedeiam pelos caminhos vestidos de paralelos. Não há sombrinha nenhuma. Uma seca.

O trabalho teria que estar pronto no sábado. Eu avisei que dois dias — sexta e sábado — era um prazo demasiado curto e que tinha outros clientes a quem tinha também que prestar contas. É claro que para esses, grande parte, nunca querem saber dos problemas e necessidades dos outros. No entanto são capazes de se reunirem em prantos caso um fornecedor em comum lhes falhe um dia no prazo. Ele falhou um dia e é um sacana. Eu gosto de prantos madalénicos porque são libertadores. E gosto do nome Madalena. E da música. Também gosto de observar os patos. Alguns deles, as gaivotas, são volantes menos apreciáveis. Outro dia, vi uma atacar uma pobre pomba à bicada, a jeito de «sai do meu caminho que sou maior». Os Ford Fiesta não voam. Não largam cagalhotos de óleo na maldita da gaivota, numa vingança negra e viscosa no inverso, menos proporcional, da esbranquiçada. É uma injustiça natural. A senhora então pediu muito, porque precisava muito, porque o trabalho era muito importante — algum alguma vez não o é? — e até me lembrei que ela vinha de um amigo. Nunca se deixa mal um amigo. Acima de tudo, quando se lembram de nós nestas alturas.
Então vá. Vamos a acertar preços. O meu preço à hora é este, multiplicado pelos 34 desenhos, no pressuposto que cada um demorará uma destas unidades, dará este valor:
— Ah, não! É muito caro, [introduzir sotaque brasileiro aqui] esse trabalho é só para desenhar o que já tá feito e o que é mesmo caro é a parte criativa, eu giro uma fábrica e tenho custo…
O café do parque também oferece tomadas para dar-mos de beber ao portátil. O meu portátil ainda é abstémio, mas dá umas fugidas. Dar de beber à borla é bom. Principalmente depois da conta de 120 da EDP. Considerando que era uma pessoa conhecida, em situação especial, decidi em clara excepção da regra, baixar o preço para metade. Ficava prejudicado,mas não me aborrecia muito. Normalmente, não gosto de me aborrecer com essas coisas. Sou um bocado parvo.
Os cisnes negros foram oferecidos por algum samaritano generoso e enfeitam bem a paisagem. Eram só dois. Agora são aos molhos. Os cisnes negros de bico vermelho devem ser patos com uma vida sexual muito feliz. É pena que não comam o raio das gaivotas.
Após algum tempo a negociar:
— Ok, ______, vamos fazer assim, deliberamos um preço por desenho, será muito abaixo do que ganho, mas como é uma situação excepcional, faço-lhe isto a um quarto do preço à hora por desenho. Ficamos em x e meio [50 cêntimos] por desenho.
Parvo.
— Está muito bem. Então vai levar esse desenho [introduzir mexer em montes de papelada
sarrabiscadade rascunho aqui] para ver o que consegue fazer. Vai levar também esta renda para “escanear” e depois fechamos tudo. Fica então a x por desenho.— Não, ______, ficamos em x e meio [50 cêntimos] por desenho.
— Isso! Ó ______, pega aí um pedaço de [introduzir termos técnicos abrasileirados sobre costura absolutamente incompreensíveis para mim] para aqui o m|a levar. Olha, meu querido, queria fazer as coisas aqui no sábado que era para nós vermos o papel, a capinha e essas coisas.
— Tudo bem, então veremos isso no sábado. Entretanto, amanhã trarei amostras de papel para escolher que, para estas apresentações, sempre é melhor os trabalhos seguirem com um aspecto mais elaborado.
— Isso, então trás assim p’ra eu ver e depois escolho. Mas não quero fotográfico! Não é preciso tanta coisa. Ficamos então a x, né?
— x e meio [50 cêntimos]!, ______, ficamos em x e meio [50 cêntimos]!
— Ah, isso [introduzir aqui um sorriso de soslaio por parte da cliente, compreensível apenas por quem já entendeu o tipo de negociação que estava a decorrer].
— Ok, então. Logo ou amanhã receberá um exemplar por email e depois venho cá para combinarmos o resto.
Lá fui à labuta e trabalhei madrugada fora para cumprir com a celeridade que a situação exigia. Tinha então esta Sra., às 2:30h a.m., um mail na sua caixa com o desenho de amostra em anexo. E lá fui eu prà caminha. A ver o telemóvel reparo que tinha telefonemas falhados e compromissos com outros por cumprir, que não querem saber da urgência de mais ninguém. Ainda pensei uma última vez na gaivota e na minha gata assanhada e arreganhada ao pescoço do bicho e lá descansei com este pensamento feliz.
O parque agora tem um bebedouro, para quem gosta de cloro fresco com cuspe alheio, e os putos lá andam, a dar pão aos patos e a jogar PSP. Hoje não há piões. Acabaram-se as nicas justiceiras em pião invasor e, cada vez mais, o melhor da porrada infantil é com Ninja Gaidens ou o Medals of Honor. Mas não se pode dar nicas num Ninja. Eles são mal humorados por causa do refluxo e não percebem destas coisas de outrora.
O trabalho ficou então decidido, após rápida conversa na fábrica da Sra., ficando determinado que eu iria fazer aquilo que conseguisse, no pouco espaço de tempo que restava e voltaria, no dia a seguir, para dar acabamentos finais e utilizar a impressora desta para a saída gráfica. Tinha levado duas amostras de impressão em papel fotográfico e matte-heavyweight. Ela preferiu o papel normal por que os outros eram muito caros e elaborados demais para o efeito [?!].
Lá trabalhei o dia de sexta-feira e madrugada de sábado a dar-lhe nas rendas e nos pontinhos em cuecas, strings, boxers, sutiãs e camisinhas, alguns estampados com um padrão de “onça” esverdeado. Nunca vi uma “onça” verde, mas já vi um elefante sem tromba. Pobre do bicho, não podia tocar ao sino para abarcar uns amendoinzitos mas lá vivia como podia, espero eu, com algum bem-estar e sem perigo de ver um dia o semblante estampado na roupa interior de uma qualquer transeunte ou tratadora. Os pombos são animais giros e úteis que têm pouco protagonismo neste post.
De portátil encavalitado e remela lavada com um duche de 12 pingas, sábado de manhã, como combinado, estava eu a apresentar o trabalho que tinha conseguido a custo de algum sono. Coisa complicada para quem não lhe pode dar na cafeína e no cigarro como antigamente. Os sapos do pântano, atrás da escola primária, explodiam a fumar as beatas que se encontravam perto dos bueiros pelos putos ariscos, que tinham piões maiores e menos nicados. Nunca ouvi falar disso acontecer com uma gaivota. É pena.
— Vamos então arranjar aqui uma área de trabalho? — dizia eu, de catana, a tentar desbravar entre linhas, rendas e caixotes do “escritório” de 3m2.
— Sim, arruma aí isso. Mas deixa tudo como estava, senão a _____ depois não consegue trabalhar.
— Sim, esteja descansada. Onde posso ligar à rede.
— Rede?
— Sim, precisava de um acesso de rede…
— Acho que aqui não tem disso.
— Ok, não há problema, eu posso ligar a impressora directamente. Tem os drivers desta impressora?
— Ai!, isso tá da mão da ______, deixa ver se encontro… É isso aí?
— Não, isto é outra coisa — adiantaria explicar o quê?
— E isso?
— Hum… Também não…
— Hum…, deixa ver… [introduzir aqui pessoa, de catana, a tentar desbravar entre linhas, rendas e caixotes um pseudo-armário onde tudo estaria arrumado direitinho]
— Acho que não tem.
— Bem, se tiver acesso à net, sempre posso descarregar, mas não deve ter os drivers deste ADSL, não é? E a password…
— Pois… Ei! Mas eu pensava que você ia trazer tudo impresso de casa!
— Mas… [eu, confuso] tínhamos combinado imprimir aqui, por causa dos acabamentos não era?
— Ai!, não, não… O que ficou combinado era você trazer os desenhos impressos, por causa de eu ter ainda que escrever as informações na grelha… [Blah, blah, blah... Enfim, não gosto de me aborrecer com estas coisas]
— Ok, ______, então vou imprimir tudo e volto. Antes, no entanto, vamos ver se está tudo certo aqui no portátil.
— Ah!, tá muito bem, já acertou aqui o vestido, olha que eu quero essa grelha igual à que te dei, tudo direitinho!
— Sim, está exactamente igual. Conservei tudo e ainda acertei as margens e espaços da paginação antiga que estavam errados.
— Ah!, sim, mas quero exactamente como estava a outra [introduzir aqui pessoa confusa, surreal -- talvez míope -- a olhar o desenho que era exactamente o que pedia].
— Sim, como pode ver aqui, está exactamente igual.
— Sim, isso, querido!
Não adianta desenvolver mais o diálogo, que incluía algumas mudanças ao estampado da pobre “onça” verde e pouco mais.
— Muito bem, então combinamos para o final da manhã ou para a tarde.
— Sim, estarei cá até ao meio-dia, ou então à tarde, às 16:00h estarei cá na fábrica.
— Ok. Até logo então.
A mais pura forma de zelo, é sem dúvida o zelo de progenitor. A forma cuidada e carinhosa com que observo a mamá cisne [pata] a cuidar dos seus filhotes é digna de qualquer documentário dominical da National Geographic. Disseram-me que, em tempos, o parque teve patos por lá semeados [os reais, de nome], mas «os caxineiros» deram cabo de todos — habitantes do lugar “Caxinas”. Local muito mediático há bem pouco tempo, por tristes razões — e foi por isso que puseram os cisnes. Eu cá também gosto de arroz de pato. E pato com laranja, embora prefira um bom borrego assado. Ou de caldeirada. As caldeiradas têm em mim uma função que dá lugar à cafeína de antigamente. Acorda-me e levanta-me a pressão arterial. E adormece-me, pouco depois, com o exagero das idas ao tacho.
Dezenas de cópias eram regurgitadas pela velha Epson, já cansada e meio entorpecida por anos de provas de cor, maquetas, relatórios, manuais, facturas, avisos, guias, livros, contos e mais uma catrefada de coisas que a bem ou a mal lhe enfiava pela gaveta das filas de impressão. Ela pouco se importava, a jeito de orgulho dos clássicos, lá fazia o trabalhinho que lhe era encomendado quer lhe apetecesse ou não. E os desenho saíam, eram corrigidos, voltavam a sair, eram conferidos e voltavam a ser impressos a alta qualidade.
São 13:00h. Telefono à cliente, ainda com um desenho para acabar, a confirmar — já um pouco descansado por a ver a luzinha de mais um trabalho concluído com sucesso — que estaria lá pela tarde, como tínhamos combinado.
— Ih! Miguéu [aprendi a detestar o meu nome naquele sotaque], estive aqui até agora à sua espera!
— Mas, estavamos combinados, caso eu não aparecesse de manhã ficaria tudo para a tarde. Peço imensa desculpa se percebi mal.
— Ah!, agora vou almoçar e estarei aqui logo às 16:00h [duh!].
— Ok, ______, já tenho tudo quase terminado e corrigido. Estarei aí logo para lhe entregar o trabalho.
Acabei de tirar as impressões finais e conferi, desenho a desenho, com ajuda preciosa de uma assistente especializada, todo o trabalho.
Pasta ao ombro, chaves na mão, 16:00h e lá me dirigia para a cliente com tudo finalizado. Fui um pouco a medo, tenho que confessar, mas aprendemos a desconfiar de certas atitudes com a experiência e algo me dizia que esta vez ia ser uma daquelas que me iriam dar mais trabalho do que desejaria.
Enganei-me. Afinal a cliente conferiu os desenhos e tudo estava certo e conforme o que desejava. As 2 colecções foram entregues, com algumas folhas extra que antecipei que poderiam ser necessárias e lá a maratona acabou em bem.
— Você ensina como se desenha em computador?
— Por norma, não, mas posso abrir uma excepção. Dependerá dos horários e da carga de trabalho que terei na altura, mas podemos combinar qualquer coisa pós-laboral.
— É que eu queria desenhar como faço no papel… Há forma de desenhar no computador? É que toda a gente gosta dos meus desenhos [mostra-me mais rascunhos em catadupa para eu ver a belíssima qualidade de traço com que a Sra. era prendada -- esterei a ser um pouco mauzinho, provavelmente]
— Claro, pois, com certeza. Tem desenhos interessantes. Para si o melhor seria utilizar uma tablet e desenhar directamente num programa. Se quiser posso lhe fazer uma prospecção desse equipamento.
— Ah, também queria um portátil, mas queria comprar tudo na ______ que eu tenho um crédito de x lá no cartão.
— Hum… Ok, eu posso ver um equipamento de referência adequado a um ilustrador e depois a Sra. tenta arranjar na loja que pretende.
— Isso! Era isso mesmo. Você põe tudo num papel e eu vou lá!
Enfim, mais trabalho, mas muito mais no âmbito daquilo que faço, o que me fazia descansar melhor.
Era um final de tarde macio e o sol ainda me confiava uma ida ao parque para sorver descafeína quente. Fiquei de entregar a factura na semana a seguir. Estava tudo certo e negociado, não havia pressa. Eu não gosto de muitas pressa porque ela é inimiga da perfeição. Eu não gosto de inimizades, muito menos de arranjar problemas entre a pressa e a perfeição. A harmonia é bonita e admirável e eu gosto de bons amigos. Além do mais, a grande maioria dos clientes, na hora de pagarem, também não gostam de pressas — fenómeno usual, que interessa pouco ser investigado.
Um dia vou contar como acabou esta estória. Acabou mal, mas a estória, em boa verdade, nunca foi o objectivo deste post.
Cortem em 4, misturem as partes e façam paste no notepad.
Vá, é preciso explicar tudo?

