A consciência de uma anomalia em nós empreende a necessidade de reconhecer um defeito. Nós não gostamos de defeitos. Ainda menos de os reconhecer. Passamos metade da vida a procurar viver com quem não os tenha, levando outra metade a conviver com os que não esperávamos na nossa pessoa. Note-se que os defeitos também se amam — não dessa forma evidente, mas da outra, da mais complicada. Quando não os racionalizamos, passamos o tempo a desculpá-los por congruência com o habitat. Quando os dissecamos, corremos o risco de nos tornarmos hipócritas pelas diminuições do que nos é alheio.
Neste balanço, perdoem-se os enjoos, assim como um autor admite as mudanças de páginas do leitor; o homicídio da ideia; do conceito; da linha-a-linha, na amnésia forçada pela criação estéril. É mesmo assim e não me admira nada essa cara meio absorta e confusa que vêem no reflexo do monitor. Este raciocínio é complicado, moroso e inútil. Não sobrevive a uma mente sadia e aprumada. E hélas!, a vida também vai sendo assim, por mais hélio que se sorva ou por mais ou menos mentais que nos tornemos.
A Reminiscência é o objectivo final. Há que admitir que, na Ideia, a mutilação é um mal necessário. As pessoas não são assim tão diferentes e a Reminiscência podendo ser despojada de defeitos, não pode viver sem eles.
Portanto, mesmo em corrosão activa, dou graças a que seja de baixo para cima. Ainda que este último pensamento me cause grandes dúvidas de tino e suscite pontos de vertigem.
Nada deve ser estudado ad nauseam. Leram aquilo do objectivo? Boa. Segurem lá nisso.
Exigimos um símbolo numa etiqueta. Tanto uma marca de personalidade, como instruções completas numa vinheta de nylon que expliquem pormenorizadamente a que temperatura devemos cuidar do feitio da pessoa, se convém secar ao natural ou se podemos dar-lhe tratamentos à máquina.
Exigimos algo de nós num outro. Queremos que ele cante as mesmas músicas, que leia os mesmos livros, que vistas as mesmas marcas, que veja os mesmos filmes, que fale a mesma língua, que ande, mova e mastigue em molde. Queremos que os cozinhados sejam compatíveis e que gostem dos mesmos animais.
Exigimos almas gémeas e procuramos qualidades. A Qualidade. E escrutinamos. Não nos vemos. Raramente nos vemos nessas alturas. Raramente reconhecemos aquilo que devíamos.
Ao lado, vão passando as pessoas, vidas e experiências que transformam cada um de nós em seres únicos. Complexos e únicos. Universos paralelos em cascata. Uma cascata de vidas que filtramos pelas marcas e costumes. Filtros que já são parte de nós.
Não acho assim tão estranho que, olhando num repente, seja difícil de acreditar que já não lute por um sonho com enorme alento; que não corra com a esperança ao colo; que, até na inércia, não erga a mão à oportunidade; que não seja credível que a brisa da ambição me empurre a virtuosas conquistas; que nesta coisa de respirar e consumir os recursos do meu espaço, não devolva nada; que me atreva a ser uma vela apagada.
Uma vela apagada não é um fracasso. Não é só algo que não se consumou num objectivo frustrado. Olhar uma vela apagada e apenas a ver assim, é como reconhecer o estado do copo como meio vazio; é comer algo incrivelmente delicioso e reconhecer somente que não está mau de todo ou como ler um livro sem sonhar a história.
Acender uma vela apagada, às vezes, está à distância de um palmo. O palmo da nossa palma. Não importa muito quantas vezes se apague e se desgaste. Nós temos o maravilhoso poder de ressuscitar. Mesmo com pouco tempo para o usar, é nosso.
A verdade é que não há etiquetas e não há instruções. A realidade é que temos medo de reconhecer este facto. O facto de cada um de nós ser maravilhoso. O facto de cada um de nós ser realmente maior do que conseguimos atingir.
O que retirar disto tudo? Não sei. Tenho alguma certeza que nunca saberei. Estou apenas à espera da reminiscência. À espera que a desilusão não sopre muito forte outra vez.
E à espera de vislumbrar o que deixo por cá.

Naoto Hattori