Tão-somente pelo simples facto de fazerem por ser impossível não se gostar deles. Além de serem levados da breca, ainda por cima, usam-no bem. Usam-no muito bem! A técnica do lampejo na interacção é apuradíssima, são vários e vários anos de instrução social na tão eficaz “mão pelo pêlo”. Escreveriam o livro, caso uma oficina os descobrisse — e descobrem tantos, que mais um ou outro não ocupava espaço na prateleira — digo eu, não sei.
São pessoas que se especializam na arte da bajulice, nunca deixando de ter a admiração dos que os rodeiam, ainda que se apercebam. Conseguem, com forma simplista, criar amizades cúmplices, levando as vítimas a uma falsa confiança, concretizando todos os objectivos que se cometem a atingir. Nós desculpamos, que até são gajos porreiros, têm piada, historietas e tal; «Favor? Não é favor nenhum, afinal somos amigos, não é?». Finalmente, quando não lhes interessa, dotados de uma mestria inigualável, resolvem muito bem com um sóbrio repúdio o que já está a mais. Tive várias experiências com este curioso género de biltre, ainda tenho, e ainda gosto odiando, consoante o caso.
Não é preciso estranhar isto do gosto odioso, que é uma coisa tão natural e despiciente de perspicácia como todas as paixões — as primeiras, dirão alguns, que o casco sempre vai maturando alguma coisa.
Caricato, é notar que todos nós temos um pouco desta biltragem, empacotando e passando o género do primeiro termo. Todos nós, em dada altura da vida, sorrimos à senhora da tesouraria ou piscamos o olho ao senhor “guichet” na EDP, ou não tivéssemos todos um qualquer patrão com mal de horário intestinal que nos obriga à celeridade de coelho bravo — e aqui se distanciam as pessoas, pela forma como resolvem a sua diligência e o quociente de biltragem que usam para o fazer. Afinal, tudo tem uma táctica, que pode passar pelo biltre marcar o orgulho ostentador de um grupo de pessoas, ou outra, pelo transparecimento da real filha da putice que o caracteriza. Que o “especializa”, perdoem-me os critérios vãos, que ninguém merece tal incauta redução.
À parte, recordo a minha avozinha, descanso tenha, que me chamava impostor a cada acto de carinho que ultrapassasse o beijo rápido e respectiva bênção, pregando-me ainda com um carinhoso cachaço, quando era o caso de beijos caprichados.
Adorava-me, a minha avó, tal como eu, que retornava a adoração. Sem cachaços.
Afinal, são os biltres e nós, também.
Que fazer? Odeia-se, claro. E ama-se. E vive-se com isso. Os “guichets” serão “guichets” e os biltres, enquanto isso, serão biltres.